
Não há no Rio, ou no Brasil,
estabelecimento similar ao Amarelinho que possa mencionar,
a partir de 1930, um número tão valioso de
frequentadores e fatos envolvidos com episódios marcantes
na História do Brasil e do Mundo, entre eles a Semana
de Arte Moderna, o início da Era Vargas, a luta pela
igualdade racial, a Guerra Civil Espanhola, os movimentos
nacionalistas no Brasil, a 2ª Guerra Mundial, além
de outros que se constituem em fontes de pesquisa para historiadores,
conforme os textos que se seguem:
SAUDADES DE CARLOS SCLIAR
Oscar Niemeyer, em 2000,
assim se se expressou sobre Carlos Scliar:
"Scliar é um
querido amigo. Um companheiro dos velhos tempos do Café Amarelinho,
do PCB, da luta política que sempre nos comoveu.
E ele, como eu – seguindo os acontecimentos sem
recuos, sem temores, consciente de que a miséria
nos cerca e que ao lado dela, dos nossos irmãos
mais pobres – devemos
caminhar. Esse é o lado humano do nosso camarada.
O outro, que o ocupou também inteiramente, é o
de sua carreira, artista plástico, de pintor de
talento, que hoje, passados tantos anos, é por todos
admirado.
É sempre bom falar dos amigos, e, quando
se trata de um velho e querido companheiro como Carlos
Scliar, é melhor
ainda. Dizer como é importante
este grande brasileiro, voltado para sua pintura a vida
inteira, mantendo-a – tão
vasta – dentro da unidade e no nível superior
por todos procurados.
E, principalmente, lembrar como se faz
atuante e solidário diante desta
miséria, deste mundo injusto em que vivemos.
Um abraço, meu amigo, um grande abraço".
A DOCE NOSTALGIA DE JOEL
SILVEIRA
A realização,
em São Paulo, da Semana de Arte Moderna e do congresso
que fundou, no Rio, o Partido Comunista Brasileiro, foram dois
acontecimentos, em 1922, cujos personagens acostumaram-se a
criar no Amarelinho um ambiente propício ao debate democrático,
acolhedor de todos os credos, ideologias e tendências.
Buscava-se romper com o conservadorismo elitista, o servilismo à cultura
estrangeira, e lutar por justiça social, incluindo a
conquista dos direitos dos trabalhadores.
Daí, o
Amarelinho consolidava sua fama como viveiro de ativistas,
e entre eles estava Joel Silveira (1918 - 2007), jornalista,
escritor, correspondente de guerra junto à Força
Expedicionária
Brasileira, na Itália, uma corajosa escolha de Assis
Chateaubriand, que contrariava o Departamento de Imprensa e
Propaganda e o ministro da Guerra, Eurico Dutra, que o acusavam
de "perigoso militante comunista". Mas, apesar dos "ventos
contrários", Joel Silveira navegou sua vida num
rumo dos mais brilhantes. Publicou mais de 40 livros e em 1998
ganhou o Prêmio Machado de Assis, o mais importante da
Academia Brasileira de Letras. No livro Na Fogueira - Memórias,
o luminoso escritor faz, no capítulo 17, estas carinhosas
menções à Cinelândia e ao Amarelinho:
"(...) Fomos
a pé da
Cinelândia
até a pensão, e tudo era burburinho. Finda
a sessão das seis, os cinemas despejavam ondas de
pessoas, as mulheres tão elegantes, de saias plissadas
que iam até a metade das pernas, na cabeça
pequenos chapéus ou boinas de feltro que pendiam
de um lado. Ao passarem deixavam uma onda de delicados
e insinuantes odores, sopros de perfume, lufadas deles.
Na esquina da Alcindo Guanabara, Luciano me apontou o café instalado
no térreo de um prédio amarelo de dez andares.
Em seu interior, todas as mesas estavam ocupadas por uma
gente variada. (...)
- Este é o famoso Café Amarelinho,
você já deve ter
ouvido falar dele. (Tinha sim). Ponto de encontro de literatos
e também
quartel-general dos intelectuais comunas. O Álvaro
Moreyra, que você tanto
admira, é presença diária. Aposto
que ele e sua mulher, Eugênia, estão lá dentro.
Vamos dar uma espiada.
Entramos no Amarelinho - e quantas vezes,
no meio século seguinte, eu
ali iria voltar? centenas, milhares? (...)"
No capítulo 35,
do referido livro, Joel Silveira recorda o jornal Dom
Casmurro:
"A fauna que
povoava a redação
do Dom Casmurro poderia ser dividida em duas
espécies distintas: a dos residentes e a dos de
passagem. Eu me incluía na primeira, juntamente
com Danilo Bastos e Wilson Lousada. Éramos os meninos
do Brício, como nos chamavam na José Olympio
e no Café Amarelinho, este um reduto de Mário
de Andrade e de sua corte de jovens literatos. Os de
passagem eram numerosos – quem não
passava por lá? Romancistas, poetas, ensaístas,
contistas, gente já consagrada ou iniciantes,
dava de tudo. Entre os mais assíduos estava Marques
Rebelo, o contista de Oscarina e futuro romancista
de A estrela sobe. Barulhento, riso sempre solto,
sarcástico, ele chegava sempre com novidades (...)".
Os meninos do Brício,
referidos por Joel Silveira, eram jornalistas e escritores
que atuavam no Dom Casmurro (1937 - 1943), órgão
fundado por Brício de Abreu, literato e crítico
musical, e Álvaro Moreyra, cronista e teatrólogo,
com muito destaque na literatura brasileira, colaborador
do Jornal de Letras, Revista da Semana, Diretrizes e
outros periódicos. Em Paratodos, do qual
foi diretor, fez publicar poemas de Mário e Oswald
de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade,
que se iniciavam na carreira literária.
Nosso Álvaro Moreyra
foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1959,
na Cadeira 21, fundada por José do Patrocínio.
REVOADA GERAL PARA
O AMARELINHO
Em 1911 a Light construiu
na Av. Rio Branco um majestoso hotel, em estilo parisiense,
que se tornou um marco histórico da cidade. No térreo,
estava a Galeria Cruzeiro com uma estação de
bondes em forma de cruz para facilitar o trânsito dos
passageiros; local com movimentados restaurantes, casas de
chá,
leiterias, bares e cafés. Tudo foi demolido em 1957
para construção do atual Edifício Avenida
Central. Concorrendo com os estabelecimentos da Galeria Cruzeiro
havia, nas proximidades, dois célebres cafés
lembrados por JG de Araújo Jorge em seu famoso livro "No
Mundo da Poesia" (1969):
"O Café Belas-Artes
foi realmente nossa 'academia' durante alguns anos. Na
esquina seguinte, frente para a antiga Galeria Cruzeiro,
era o Café Nice, ponto de reunião de cantores,
músicos, compositores da velha- guarda Eram
dois mundos que não se misturavam. Quando
instalaram a Caixa Econômica no local do Belas-Artes,
levantamos vôo e fomos pousar na Cinelândia.
Iniciava-se a fase do Café Amarelinho.
O mesmo grupo do Belas-Artes estava agora acrescido de outros elementos,
alguns mais velhos, de outras gerações. Era comum, nas cadeiras
de palhinha, na calçada, encontrarmos Murilo Araújo, Álvaro
Moreira, Mário de Andrade, (quando de passagem pelo Rio), Raquel de Queirós,
José Lins do Rego, Portinari, Graciliano Ramos, Jorge de Lima. Uma tarde
fui apresentado a Julio Salusse, o poeta de Os Cisnes".
José Guilherme
de Araújo
Jorge (1914-1987), nascido no Acre, veio para o Rio onde
fez o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano
e Pedro II. Como literato, colaborou nos jornais "Correio
da Manhã" e "A Nação",
nas revistas "Carioca", "Vamos Ler" e
outros órgãos da imprensa do Rio. Formado em
Direito, também destacou-se como professor de
História e Literatura no Colégio Pedro II.
Ativista político, socialista de raiz, foi eleito
deputado federal em vários mandatos.
Sua luminosa biografia
inclui sucessos como locutor e redator de programas nas Rádios
Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado. Festejado como
o Poeta
do Povo e da Mocidade, assim ele prossegue com suas
reminiscências:
"Jorge de Lima
tinha consultório
no mesmo edifício do café e era o médico
dos escritores e artistas do Amarelinho. Hoje, depois
de tantos anos, só lastimo não ter me aproximado
do Jorge, participado mais de sua convivência.
O grande poeta me pareceu sempre esquivo, silencioso,
distante.
No mesmo edifício ficava também a redação
de 'Dom Casmurro', o jornal literário de Brício de Abreu. Quem
desejar escrever a história dessa época terá que consultar
as coleções de 'Dom Casmurro'. Lembro-me que, na ocasião,
um nome novo se projetava, Joel Silveira, que acabara também de chegar
do Norte, e que à maneira de Sergio Porto, depois lírico e satírico,
tirava do dia-a-dia da vida da cidade a substância de suas crônicas".
"PROTOFONIA" DA ORQUESTRA
SINFÔNICA BRASILEIRA
Jorge de Lima (1895-1953),
lembrado por JG, é outra glória da literatura
brasileira, romancista e poeta de múltiplas facetas,
médico
dos mais conceituados, aplicador dos métodos de higienização
urbanística, catedrático de Literatura, na
Universidade do Brasil e na Pontifícia Universidade
Católica. O final das transcrições das
crônicas de JG tem variada e intensa luminosidade:
"No Amarelinho,
reuniam-se ao nosso grupo jovens músicos cheios
de idealismo e de planos. Eleazar de Carvalho e José Siqueira
são velhos amigos, com quem troquei muitas vezes
idéias. Eu estivera na Alemanha, frequentara a
Filarmônica de Berlim, então sob a regência
de Furtwaengler, fora a Bayreuth, assistira a Wagner
em seu teatro, e muitas vezes lhes sugeri a criação
de nossa Orquestra Sinfônica Brasileira, da qual Álvaro
Ladeira, cronista de arte, outro amigo, foi secretário
por muitos anos.
Falar do Amarelinho é recordar
nomes e amigos, poetas, romancistas, jornalistas, pintores,
compositores, caricaturistas, cuja convivência,
nessa época, enriqueceu de lembranças minha
memória. Armando Pacheco, eram dois, o pintor
e o jornalista; os Condés, Mendes, Alvarus, Wilson
W. Rodrigues, D’Almeida Victor, Cursino Rapôso,
Paulo Mac-Dowell, Nélio Reis, Nélson Ferreira,
alguns desaparecidos, como Osório Borba, Augusto
de Almeida Filho, Amadeu Amaral Júnior, Martins
Castelo. Era a minha geração. Não
ficou marcada cronologicamente: de 35 ou de 40.
Mas teve seu tempo, foi bem um prolongamento do que se
poderia chamar a belle époque.
Como poetas,
apenas dois nos fixamos: eu e Vinicius de Morais. Os
outros perderam-se na vida, e, distraídos da poesia,
enveredaram por múltiplos atalhos. Que sejam felizes! "
A LUTA PELA IGUALDADE
RACIAL
O Amarelinho, ao longo
de várias
décadas, recebeu os integrantes da luta contra o racismo
e em favor dos direitos dos negros na sociedade brasileira.
Entre eles, o incansável Abdias Nascimento,
autor dos livros "Sortilégio", "Drama
para Negros e Prólogo para Brancos", "O
Negro Revoltado", além de outros. Eis alguns
expressivos lances da sua movimentada biografia:
"Nasce em Franca,
SP, em 1914, o segundo filho de Dona Josina, a doceira
da cidade, e Seu Bem-Bem, músico e sapateiro.
Abdias cresce numa família coesa, carinhosa e
organizada, porém
pobre, e vai se diplomar em contabilidade pelo Atheneu
Francano em 1929. Com 15 anos, alista-se no exército
e vai morar na capital São Paulo. Na década
dos 1930, engaja-se na Frente Negra Brasileira e luta
contra a segregação racial em estabelecimentos
comerciais da cidade. Prossegue na luta contra
o racismo organizando o Congresso Afro-Campineiro em
1938. Funda em 1944 o Teatro Experimental do Negro -
TEN, entidade que patrocina a Convenção
Nacional do Negro, em 1945-1946.
A Convenção propõe à Assembléia Nacional Constituinte
de 1946 a inclusão de políticas públicas para a população
afro-descendente e um dispositivo constitucional definindo a discriminação
racial como crime de lesa-pátria. À frente do
TEN, Abdias organiza o 1º Congresso do Negro Brasileiro em 1950. Militante
do antigo PTB, após o golpe de 1964 participa desde o exílio na
formação do PDT. Já no Brasil, lidera em 1981 a criação
da Secretaria do Movimento Negro do PDT.
Na qualidade de primeiro
deputado federal afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta
contra o racismo (1983-1987), apresenta projetos de lei
definindo o racismo como crime e criando mecanismos de
ação compensatória para construir
a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira.
Como senador da República (1991, 1996-1999), continua
essa linha de atuação. O
Governador Leonel Brizola o nomeia Secretário
de Defesa e Promoção das Populações
Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-1994).
Mais tarde, é nomeado primeiro titular da Secretaria
Estadual de Cidadania e Direitos Humanos (1999-2000)".
Abdias foi Professor
Benemérito
da Universidade do Estado de Nova York, distinguido também
com diversos títulos outorgados por instituições
públicas e privadas. Em 2006, criou o Dia da Consciência
Negra, que se tornou uma data cívica no calendário
nacional.
Em torno do Teatro Experimental
do Negro, há este significativo registro:
"O TEN, cuja
primeira sede foi montada no prédio da União
Nacional dos Estudantes - UNE, na Praia do Flamengo,
foi planejado em conjunto com diversos artistas e intelectuais.
Aguinaldo Camargo, Wilson Tibério, Theodorico
dos Santos, José
Herbel e Rodrigues Alves participavam constantemente das discussões,
que tinham como cenário o famoso Café Amarelinho, na Cinelândia.
O objetivo do TEN não era apenas produzir peças, mas também
usar o teatro como instrumento de luta para o desenvolvimento e o avanço
da qualidade de vida da comunidade negra".
A DRAMÁTICA
TRAJETÓRIA DA
ALIANÇA
NACIONAL LIBERTADORA -
ANL
Em 1929, com a queda
da Bolsa de Nova York e a consequente crise que abalou a
economia mundial, surgiram vários movimentos de resistência
ao capitalismo, às distorções por ele
provocadas. No Brasil, aos primeiros anos do governo Vargas,
surgiu uma frente única que, além de condenar
os desvios do poder econômico, combateria a ideologia
nazi-fascista que, de forma avassaladora, alastrava-se na
Alemanha, Itália
e outros países. A frente única, intitulada
Aliança Nacional Libertadora - ANL, também
repudiaria as tentativas de retorno das velhas oligarquias
que tanto haviam comprometido as primeiras décadas
da República (1889-1930).
A ANL reunia intelectuais,
militares, profissionais liberais, funcionários públicos,
sociais-democratas, marxistas, trabalhadores e estudantes,
além de ardorosos adeptos do tenentismo, o movimento
que muito contribuiu para a derrocada dos "carcomidos",
assim chamados os políticos acostumados às
práticas e aos vícios responsáveis pelo
atraso do Brasil. A criação da ANL foi
anunciada na Câmara Federal em janeiro de 1935, e em
março ocorreu a solene instalação no
teatro João Caetano. Do seu programa constavam,
como base, o exercício da plena democracia, a ajuda
aos pequenos e médios empresários, a nacionalização
das empresas estrangeiras, o combate aos latifúndios,
aos trustes e monopólios, além do cancelamento
unilateral da dívida externa.
Um estudante de 19 anos,
Carlos Lacerda, em inflamado discurso propôs Luís
Carlos Prestes, "O
Cavaleiro da Esperança", como presidente de honra
da instituição. Em abril, a União
Feminina do Brasil, uma entusiasmada associação
de mulheres anti-fascistas reuniu-se no Instituto de Educação
e apresentou seu programa, inspirado na ANL. Em várias
capitais e cidades brasileiras realizaram-se manifestações
de apoio à Aliança, mas em junho daquele ano
(1935) Getúlio Vargas decretou seu fechamento, interditou
a sede que se instalara num sobrado da Avenida Almirante
Barroso, iniciando a repressão aos seus integrantes,
intensificada após o levante de militares comunistas
do 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha. Milhares
de prisões se sucederam ao longo de 1936-1937; entre
os condenados estavam Luís Carlos Prestes e Pedro
Ernesto, prefeito do Distrito Federal. O "tiro
de misericórdia" na ANL foi o advento do Estado
Novo, regime de força que durou de 10 de novembro
de 1937 a 29 de outubro de 1945.
Naquele período
de repressão,
censura e arbitrariedades, muitos adversários da ditadura
fizeram do Café Amarelinho o ponto de encontro onde
cultivavam a esperança e não deixavam morrer
seus ideais de democracia e justiça social. Entre
eles estava o jovem Carlos Lacerda, um dos primeiros arautos
da Aliança Nacional Libertadora, que viria a ser eleito
em 1960 governador do Estado da Guanabara, empossado em 5
de dezembro daquele ano.
A ESPANHA REPUBLICANA
DE MANUEL BANDEIRA
Os últimos cinco
anos da década
de 1930 foram perigosamente dramáticos, tempos marcados
por choques ideológicos, intolerâncias e imposição
do poder pela força das armas, tornando-se as sementes
maléficas dos conflitos bélicos que, nos anos
seguintes, atingiriam todos os continentes. Entre as
paredes e mesas do Amarelinho, em meio à animação
de artistas, músicos e compositores, muitos expoentes
da cultura brasileira refletiam e debatiam sobre os temas
essenciais da existência humana.
Um desses cultores do
saber, já notável
por ser autor de obras literárias que o tornariam
imortal, estendia sua mente para um país europeu que
havia mergulhado na guerra civil. Em 1931, os espanhóis,
através de eleições livres, optaram
pelo regime republicano, contrariando uma minoria formada
por monarquistas, conservadores tradicionalistas, católicos
convictos, além de simpatizantes da Alemanha, de Hitler,
e Itália, de Mussolini.
A Espanha tornou-se o
campo de ensaio para a aviação nazista, com
seus mortíferos
bombardeiros de mergulho, artilharia pesada, blindados e
tropas de assalto. Todo um aparato bélico que,
em escala maior, iria caracterizar a blitzkrieg hitlerista
nos três primeiros anos da 2ª Guerra Mundial. Guernica,
uma pequena cidade basca, foi impiedosamente arrasada pelos
aviões alemães da sinistra Legião
Condor em abril de 1937; genocídio retratado
por Pablo Picasso através de uma tela a óleo
(8 m x 3,5 m) hoje em exposição no Museu de
Arte Moderna de Nova York; um misto de cubismo, semi-abstracionismo,
com traços transtornados que expressam o horror pela
bestialidade da guerra.
Para resistir às
poderosas forças que se uniram ao ditador Francisco
Franco, os republicanos contavam com parcos recursos, entre
eles a ajuda de milhares de voluntários precariamente
armados, com pouco ou nenhum treinamento militar, vindos
de diversos países, entre os quais França,
Reino Unido, Polônia, Suíça, Iugoslávia,
Grécia,
Brasil, Estados Unidos, México, Argentina, além
de anti-fascistas alemães e italianos. Embora
derrotados, os remanescentes dessas brigadas internacionais
foram saudados pela ativista política Dolores Ibarruri,
a célebre "La Pasionaria", com esta despedida: "Podem
partir de cabeça erguida! Vocês são o
exemplo heróico da democracia solidária e universal".
Por sua vez, um entristecido
Manuel Bandeira consolava-se junto aos companheiros do Café Amarelinho
e, com a sensibilidade de ser professor de Literatura Hispano-Americana
na Faculdade Nacional de Filosofia, também inspirado
pelo seu gênio de poeta, fazia esta saudação
solidária ao destroçado país ibérico: "Espanha
no coração / No coração de Neruda,
/ No vosso e em meu coração. / Espanha da liberdade,
/ Não a Espanha da opressão / ... A Espanha
de Franco, não! / Espanha republicana, / Noiva da
revolução! / Espanha atual de Picasso, / De
Casals, de Lorca / Irmão assassinado em Granada! /
Espanha no coração".
Além de Picasso,
o poeta reverenciava o chileno Pablo Neruda (ativista de
uma Espanha liberta do arbítrio), o violoncelista
e regente Pablo Casals, e o poeta e dramaturgo Federico Garcia
Lorca, fuzilado em 1936.
APÓSTOLOS DA BRASILIDADE
Foi Paulo da Silva Prado,
um rico herdeiro da aristocracia cafeeira de São Paulo,
quem se tornou ainda muito jovem o mecenas da arte brasileira,
fazendo surgir o Movimento Modernista de 1922. Abriam-se
as portas para o talento de Manuel Bandeira, Lasar Segall,
Vitor Brecheret, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Monteiro
Lobato, Lima Barreto, Oswald e Mário de Andrade, Ronald
de Carvalho, Di Cavalcanti, Portinari, Carlos Drummond de
Andrade, Cassiano Ricardo, Heitor Vila-Lobos, Tarsila do
Amaral, Olívia Penteado, Patrícia Galvão
(Pagu), Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior,
Raquel de Queirós, Heckel Tavares, Cecília
Meireles, Afonso Schmidt e tantos outros astros e estrelas
com intensa luminosidade onde sobressaíam cintilações
em fortes tons verde e amarelo.
Podiam, por vezes, divergir
entre eles, mas convergiam totalmente nos postulados que
Mário
de Andrade soube definir:
"A conquista
do direito permanente à pesquisa
estética; a atualização da inteligência
artística brasileira e a estabilização
de uma consciência criadora nacional".
E o Amarelinho era o
atraente ponto de encontro de tão vasta galáxia,
literatos, poetas e artistas, do Rio, de São Paulo
e de todo o Brasil. O radialista e pesquisador Osmar
Frazão
registrou em seu apreciado programa "Histórias
do Frazão", da Rádio Nacional, em 13 de
dezembro de 2009, que Mário de Andrade quando vinha
ao Rio buscava conversar com Waldemar Henrique, o célebre
compositor da canção "Minha Terra",
uma exaltação à brasilidade, e entre
as mesas do Amarelinho falavam animadamente sobre nossa música,
a impressionante diversificação dos ritmos
regionais, a versatilidade dos músicos, a qualidade
dos intérpretes e os novos caminhos das nossas artes
plásticas, inspiradas em raízes genuinamente
brasileiras.
Outro personagem, frequente
naquele cenário montado no incomparável palco
da Cinelândia,
também percebeu a real dimensão daqueles tempos
de transição: Celso Kelly, professor do Instituto
de Educação e da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, onde lecionou Literatura, História das
Artes, Fundamentos Estéticos da Comunicação
e Jornalismo Comparado, que presidiu entre outras instituições,
a Associação Brasileira de Imprensa e a Associação
dos Artistas Brasileiros; com olhos e ouvidos de quem, também,
foi diretor do Teatro Municipal e do Departamento Nacional
de Educação, sintonizou toda a brasilidade
que ali se propagava. Especialmente sobre o Movimento
Modernista, cujos inúmeros atores principais estavam
no círculo do seu convívio, Celso Kelly assim
dissertou:
"Temos vivido,
neste século,
uma larga faixa de surpresas. Nunca os ateliers de
pintura e escultura estiveram tão revoltos, desinibidos
de preconceitos, em busca de soluções novas,
pródigas em número e em variações,
como se o mundo - pelo menos nesse setor - estivesse
a reinventar-se. A fertilidade é tal que
ninguém se fixa no achado, e tem logo a atenção
solicitada por outra iniciativa, que já sofre
a concorrência de terceiras e quartas soluções. Dentro
dessa oficina, sem a regência de espíritos
catalisadores que tentem alguma unidade, tudo é permitido: tem-se
a impressão de que cada qual saca do seu buril
ou do seu pincel, do seu pedaço de madeira ou
ferro, ou de sua substância corante, e dá curso à imaginação;
transporta-se ao estado criativo e, posto nessa condição
mágica, realiza o que lhe vem ao espírito,
espontâneo ou premeditado, no extremo da originalidade,
como se respondesse ao dever de dar nova imagem a este
mundo milenar".
DE CUSTÓDIO MESQUITA
E MARIO LAGO
A GEORGES BERNANOS
Erguida a partir da 2ª metade
dos anos 1920, a Cinelândia não demorou a consolidar
prestígio e tornar-se a "Broadway Brasileira",
conforme o arrojado projeto do imigrante espanhol Francisco
Serrador. Contudo, em meio às suas diversas atrações
não se encontravam, de forma destacada, espetáculos
musicais com o autêntico samba de morro. Daí,
em 1936, Custódio Mesquita e Mario Lago compuseram "Sambista
da Cinelândia", cuja letra é a seguinte:
Sambista desce o morro / Vem
pra Cinelândia, vem sambar / A cidade já aceita
o samba / E na Cinelândia / Só se vê gente
a cantar /
Hoje está tudo tão
mudado / E acabou-se a oposição / Escolas
há por todo lado / De pandeiro e violão
/
O morro já foi aclamado
/ E com um sucesso colossal / E o samba já foi
proclamado / Sinfonia Nacional
A letra diz: "acabou-se
a oposição", um eufemismo, pois,
na verdade, a "oposição" era
uma brutal perseguição aos sambistas de morro,
nas duas primeiras décadas do século 20,
odiosa campanha (que também se fazia contra capoeiristas,
praticantes de cultos afros, ou qualquer agrupamento de
negros) promovida por poderosos chefes de polícia,
entre eles Sampaio Ferraz (apelidado "cavanhaque de
aço") e Aurelino Leal, que, absurdamente, tornaram-se
nomes de ruas; o primeiro, no Estácio (berço
de sambistas...) enquanto o segundo é placa de rua
no Leme...
Havia um outro troglodita,
o tristemente célebre "Delegado Chico Palha",
merecidamente execrado num samba dos compositores Tio Hélio
e Nilton Campolino, gravado por Zeca Pagodinho. A letra narra
os desmandos do desprezível personagem e revela seu
triste fim, acabou sendo expulso da polícia, caiu
na miséria
e virou mendigo.
Voltando à composição "Sambista
da Cinelândia", no site www.historiasdofrazao.com.br
podem ser obtidos detalhes sobre ela, conforme pesquisa do
competentíssimo Osmar Frazão, de quem ganhei,
recentemente, uma primorosa reprodução em CD
daquela música, interpretada por Carmen Miranda.
Em 1938, quando o samba
já estava
consagrado como "Sinfonia Nacional", e
seus ferozes inimigos não passavam de tristes lembranças,
chegava ao Brasil, aos 50 anos de idade, o jornalista e premiado
escritor francês Georges Bernanos, famoso por diversas
obras de repercussão internacional, Sous le soleil
de Satan (Sob o sol de Satã); La Joie (A
Alegria); La Grande peur des bienpensants (O Grande
medo dos bem-pensantes); Journal d'un curé de
campagne (Diário de um pároco de aldeia); Les
Grands cimetières sous la lune (Os Grandes cemitérios
sob a lua), este inspirado na Guerra Civil Espanhola, da
qual participou como repórter.
Combatente na 1ª Guerra,
Bernanos antepunha-se ao nazi-fascismo e estava inconformado
com a "política
de apaziguamento" de franceses e britânicos diante
dos avanços hitleristas na Europa. O escritor aqui
chegou com mulher, seis filhos e um sobrinho, passando temporadas
em cidades do interior do Rio e de Minas Gerais. Mas sua
intelectualidade explodia com todo o vigor quando vinha ao
Rio, cidade que ele dizia ser "prodigiosamente bela".
Seu pouso predileto era na Cinelândia, e Ubiratan Machado,
autor do livro "A literatura francesa durante a II Guerra
Mundial", faz este registro:
"Podia ser visto à tarde
numa mesa do café Amarelinho, escrevendo. O burburinho
da Cinelândia, o barulho do trânsito, os
gritos dos garçons, nada o incomodava. Pelo contrário,
tinha necessidade desse contato humano para se concentrar.
E cultivava amigos queridos, como Jorge de Lima, Alceu
Amoroso Lima, Virgílio de Melo Franco".
Na mesma obra,
o autor revela:
"Com o seu 'jeito
meio alçado
de enorme pássaro de Deus' (como dizia Jorge de
Lima), a sua presença insólita - como um
meteoro caído de um universo paralelo - os seus
arroubos de cólera, a sua aspereza de pedra, a
sua loquacidade incansável (falava durante horas,
em voz altíssima, sem deixar ninguém abrir
a boca), Bernanos parecia mais um profeta bíblico,
oferecendo o que se espera de todo profeta: violência
de expressão, inquietação, a voz
que clama contra o desconcerto do mundo".
"O jovem, e
igualmente colérico
Carlos Lacerda, definiu-o como o 'magnificamente errado
Georges Bernanos, um homem que não pode ensinar
a ninguém o verdadeiro caminho, mas que certamente
pode muito bem - e ensina ainda melhor - qual o caminho
que se não deve tomar".
Como se vê, na
impressionante história do Amarelinho está a
interlocução
de dois gigantes do pensamento contemporâneo, a debater,
com estrondos vulcânicos, os rumos da nossa conturbada
humanidade. Bernanos voltou a França em 1946, onde
morreu 2 anos depois. Ubiratan Machado, no seu livro, assegura:
"Os sete anos
no Brasil foram de produção intensa, durante
os quais redigiu mais de 250 artigos para a imprensa,
a maior parte publicada em português em O Jornal,
traduzidos por Lúcia Miguel Pereira, e dezenas
de panfletos, barulhentos como um tiro de canhão,
para a BBC. Compôs três livros editados no
Brasil - Lettre
aux Anglais; Le Chemin de la Croix-des-Ames; La
France contre les Robots".
Em meio a uma Europa
desmantelada, Georges Bernanos ainda chegou a lançar
mais 4 livros, entre eles Monsieur Ouine, que começara
a escrever em 1932. Durante sua permanência no Brasil,
ele se fez permeável ao nosso jeito de ser e de viver,
num novo mundo bastante promissor, com muita coisa a fazer,
mas bem diferente de um velho mundo irremediavelmente acostumado
a sangrentos e generalizados conflitos.
O POETA E DOIS
DOS SEUS AMORES
Nascido dentro de uma
estirpe de literatos, primo de Manuel Bandeira e Gilberto
Freyre, o pernambucano João Cabral de Melo Neto chegou
ao Rio em 1940, aos 20 anos de idade, logo passando a conviver
com o numeroso grupo de intelectuais frequentadores do Amarelinho.
Em 1942, lançou o livro Pedra do Sono, primeiro
de uma trajetória literária que se aliou à carreira
diplomática, iniciada em 1945 quando se tornou vice-cônsul
do Brasil em Barcelona, onde fez fraterna amizade com Miró,
escrevendo um ensaio sobre o célebre pintor espanhol,
que ilustrou o texto com diversas reproduções
de suas obras.
Transferido em 1950 para
o nosso Consulado Geral em Londres, é surpreendido,
dois anos depois, com a ordem de regressar ao Brasil para
responder a inquérito,
sob a acusação de "atividades subversivas". O
mundo, naquela época, vivia sob o temor da "guerra
fria" e certos setores em muitos países do Ocidente
deixavam-se envolver pelo macartismo, a radical
oposição ao comunismo, ou qualquer manifestação
de esquerda, oposição liderada pelo senador
norte-americano Joseph Mac Carty, um sujeito horroroso que
infernizou a vida de muita gente, atormentando, principalmente,
intelectuais, cineastas, astros e estrelas de Hollywood.
Por aqui, enquanto rolava
o inquérito
sobre as supostas "atividades subversivas" do nosso
João Cabral de Melo Neto, ele sofria a suspensão
dos seus pagamentos pelo Itamaraty, apenas surgindo para
garantir sua sobrevivência financeira e manutenção
da família, já numerosa, a oportunidade de
trabalhar como secretário do jornal "A Vanguarda",
de Joel Silveira, outro cujos ideais socialistas eram tachados
de "subversivos".
Em 1954, o Supremo Tribunal
Federal decidiu pela sua reintegração à carreira
diplomática, decisão festejada em homenagens
prestadas pela intelectualidade brasileira, em vários
Estados, e alegremente brindada nas mesas do Amarelinho.
Retornando ao Itamaraty,
segue para Barcelona, como cônsul adjunto, e em Sevilha,
onde morou algum tempo, tem a missão de fazer pesquisas
históricas no Arquivo das Índias. Em
1958, está no Consulado Geral em Marselha, alternando,
nos anos seguintes, missões em Genebra, Berna e, novamente,
Barcelona. Seja no Brasil ou em outros países,
jamais deixou de produzir suas obras literárias, entre
elas Os Três Mal Amados, O Cão
sem Plumas, A Educação pela Pedra, Funeral
de um Lavrador, componentes de um elenco de alto valor
na cultura nacional, cuja inspiração maior
está nos dramas sociais do Nordeste brasileiro e do
povo espanhol, que muito marcaram sua fina sensibilidade
de humanista.
Morte e Vida Severina,
peça
escrita entre 1954 e 1955, é considerada a maior das
suas obras, na qual está exposto o padecimento do
retirante da seca. Impressionante dramaturgia encenada
por Sidney Siqueira na década de 1960 para o Teatro
da Universidade Católica de São Paulo, depois
apresentada pela Companhia Paulo Autran, musicada por Chico
Buarque de Holanda. Morte e Vida Severina é considerado "o
texto teatral brasileiro moderno de mais puro teor literário
e de mais requintada beleza poética".
Em maio de 1969, nosso
poeta tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras,
na Cadeira nº 6,
sucedendo a Assis Chateaubriand. Viveu 79 anos, despedindo-se
do palco terreno em 1999, mas sem ver, como sempre desejava,
dois dos seus amores voltarem aos tempos de grandes conquistas: o
América F. C., de Pernambuco, e o América F.
C. do Rio. Do primeiro, sempre recordava a conquista
em 1944 do título de Campeão Pernambucano. Um
timaço no qual jogavam o admirável goleiro
Leça e dois zagueiros difíceis de serem vencidos,
Deusdedith e Lucas. Do segundo, o América do
Rio, mantinha viva na lembrança as esfuziantes exibições
de um quinteto de atacantes-bailarinos, Natalino, Maneco
(o "Saci de Irajá"), Dimas, Ranulfo e Jorginho,
craques que alegraram o futebol brasileiro, atenuando a tristeza
causada pela derrota diante do Uruguai, em 1950. Quando
o América conquistou o título de campeão
em 1960, viveu período de enlevo, no futebol e na
literatura, pois naquele ano publicava em Lisboa seu livro Quaderna.
Nosso literato foi um
apreciador da seção "Futebol Pitoresco",
de João
Antero de Carvalho, que ao longo de quase vinte anos (1968
- 1987) foi apresentada aos domingos no jornal "O Dia". Os
textos e as caricaturas, especialmente quando enfocavam o
América, atiçavam o interesse do poeta, mantendo
acesas suas esperanças da volta do clube da Rua Campos
Sales aos dias de glória. No 3º e último
livro de autógrafos colecionados por Antero (jurista,
jornalista e desportista) está a declaração
lavrada em 1984 por João Cabral de Melo Neto sobre
o América: "É o meu clube de toda
a vida". A afirmação está na
derradeira das páginas com numerosos autógrafos
e pensamentos de celebridades do Brasil e do mundo, iniciados
em 1932 com um desenho de Raul Pederneiras (professor da
Escola Nacional de Belas-Artes e jornalista), além
de registros assinados por Afrânio Peixoto (médico,
romancista, membro da Academia Brasileira de Letras) e Olegário
Mariano (diplomata, poeta, também imortal da ABL).
AVÔ E NETO
EM ROLANÇAS NA CINELÂNDIA
Nascido em 1911 na Rua
do Rezende 150, batizado quando já morava na Rua do
Senado, Mario Lago passou a infância flutuando alegremente
no então
chamado Bairro de Santo Antonio (Lavradio, Inválidos,
Riachuelo etc.). O tempo foi passando, o garoto crescia
e pelas mãos do avô veio a conhecer outras áreas
da cidade. Esse avô, de nome Croccia, era imigrante
italiano, nascido num vilarejo da região de Lucânia,
ex-músico de pequena orquestra de bordo. Dele,
o neto, em seu livro "Na Rolança do Tempo",
guarda esta gostosa recordação:
"Já o
conheci um sacudido sessentão, ostentando linda
e alegórica
barba branca, que lhe emprestava certo ar pirandeliano
e o mantinha preso diante do espelho um mínimo
de meia hora por dia, numa chinesíssima operação
de ajeitar fio por fio, distribuir camada sobre camada,
como se aquilo obedecesse a um ritual dos mais sagrados
para a salvação de sua alma. Velho
pimpão e conhecedor de mil mumunhas estava ali,
e que Deus o mantenha sentado à sua mão
direita só por isso, quando outras razões
não houvesse. Os anos iam passando, o reumatismo
fazia progressos, a bronquite tabágica, mais do
que a tosse, lhe arrancava guinchos. Mas quem disse
que ele se conformava em entregar o bastão? A
todo instante corrigia o andar, para não imaginarem
que estava ficando trôpego. Aos oitenta anos
escandalizou os filhos, quando alguém lhes foi
contar que ele era cobrador de uma farmácia".
A surpreendente revelação
de que o velho arranjara aquele "bico" causou um
tremendo furdúncio no seio da numerosa família. O
patriarca, na realidade, não tinha a mínima
necessidade de tão penoso trabalho, andar atrás
de devedores, pois nada lhe faltava; recebia dos filhos pontuais
e agradecidas mesadas para passeios, charutos, pequenas despesas.
Os familiares, de fala barulhenta, pródigas gesticulações,
exalando um DNA característico do gênero italiano,
armaram uma confusão das mais dramáticas. Contudo,
o objetivo do avô era bastante saudável, altamente
digno de nossa profunda admiração, calorosos
aplausos e muita reverência. Mas, deixemos ao
sensato Mario Lago a revelação da necessidade
daquele trabalho como cobrador de farmácia:
"As comissões
das cobranças, como ficou esclarecido mais tarde,
e serviu de motivo para um escândalo ainda muito
maior, iam todas para uma mulata pródiga de carnes
e especialidades. E com que candura
divina ele se justificava diante dos traumatizados 'francamente,
papai!' repetidos incansavelmente pelos filhos: -
Vocês vivem por viver, figli miei. Não
conhecem da missa a metade. Mulata é capaz
de levantar qualquer defunto... e eu ainda estou respirando, grazzia
a Dio".
Agora, imaginemos avô e
neto rolando pelo Centro do Rio, tagarelando sem parar, atraídos
pela beleza do Teatro Municipal, a imponência da Biblioteca
Nacional e do Museu de Belas-Artes; a fascinante presença
do magnífico Palácio Monroe, tudo parecido
com Paris. Eis outro relato do genial Mario Lago sobre
os locais onde hoje está a Cinelândia, e perceba
o leitor que o esperto avô já havia ganho um
pitoresco apelido:
"Em 1919 a atual
Praça
Floriano ganhava ajardinamento novo e constituía
nosso passeio predileto. Ali passávamos
horas esquecidas. O barbicha - assim os trabalhadores
o chamavam, forçando intimidade e lhe dispensando
carinho e paciência de netos - se deslocava de
um lado para outro, indagando sobre o andamento do serviço
e até dando opiniões, como se tivesse alguma
responsabilidade em tudo aquilo.
Do antigo Convento
da Ajuda, construído
em fins do século XVII, na área hoje ocupada
pela Cinelândia, havia em 1919 apenas um muro. No
terreno cercado por esse muro eram realizadas exposições
de animais e flores. Nada mais restava do antigo
Seminário, construído no terreno ao lado
do convento, doado pelas freiras, e demolido no final
do século passado".
A sintonia entre avô e
neto era tanta, e tantas as estripulias da dupla, que os
pais do menino falavam: "Deus os fez e o diabo os juntou". Por
influência do capeta, o barbicha falava ao neto dos
rumores que circulavam na cidade em torno da demolição
do convento, a descoberta de um túnel secreto que
ligava o mosteiro feminino ao seminário. As
narrativas do velho Croccia eram em apoio às suposições
(altamente pecaminosas...) e vinham com detalhes, inflexões
de voz e sonorizações. Um horror !...
Mario Lago também
conta episódios
do fim de um marco histórico da cidade, assistidos,
ao vivo, pela irrequieta dupla:
"A demolição
do Morro do Castelo foi um dos momentos mais gloriosos
para o velho Croccia. Da Europa tinham sido importadas
máquinas moderníssimas, destinadas a apressar
a conclusão das obras. Aproximavam-se as comemorações
do 1º Centenário da Independência,
e a cidade deveria parecer um brinco aos olhos das delegações
estrangeiras que viriam participar dos festejos. Todos
os domingos lá íamos, eu e o barbicha,
admirar as maravilhas do progresso, num passeio que acabou
se tornando o grande divertimento dos cariocas pobres.
Quem mais não queria ver as esguichadas violentíssimas
que saíam das tais máquinas e iam arrastando
terra e pedra, fazendo num só dia o que outros
engenhos levariam semanas, talvez meses. O subúrbio
se despejava por inteiro nas redondezas do morro. Vinham
caravanas de Estados mais próximos para constatar
que nada como o Rio para saber fazer as coisas, e por
isso era a capital da República.
Ao ruído infernal
da maquinaria se misturava o caos das discussões. Por
toda parte se formavam grupos atrapalhando os operários,
dificultando o bom andamento do serviço. Havia
quem aprovasse a medida, pois o progresso justificava
tudo, e já era tempo, mesmo, de extirpar do centro
da cidade aquele covil de meliantes (não sei porque,
mas os moralistas adoram usar palavras que ninguém
emprega nem sabe). Outros eram totalmente contrários à medida. Aquilo
era uma sangria nos cofres públicos, obra que
não precisava ser feita, só queriam encher
os olhos dos estrangeiros e dar a impressão de
sermos um país muito rico. De mais a mais,
que sacrilégio estavam cometendo. Demolir
o lugar escolhido por Mem de Sá para fundar a
cidade! ".
Croccia era ardoroso
defensor do modernismo e berrava de entusiasmo ante os potentes
jatos d'água
que derretiam o morro. Às opiniões contrárias,
o velho respondia de forma exaltada; os ânimos ferviam
e, várias vezes, a porrada comia solta. Ninguém
jamais morreu, mas houve a necessidade de socorros médicos,
prestados pela Assistência Pública, e a condução
dos brigões ao xilindró. Na verdade,
as únicas coisas que acalmavam, por completo, o turbulento
Croccia eram os braços e os cafunés da tal
mulata, dos momentos de amor dos quais os dois se deliciavam,
num discreto e bem arrumado quartinho na Rua do Lavradio. O
tempo correu, o velho foi para jardins celestes, onde de
forma amena, respeitosa, tem trocado idéias com Jorge,
Sebastião, Benedito, Genaro e outros santos gloriosos.
O neto, pleno de talentos
e genialidades tornou-se celebridade nacional, compositor,
poeta, escritor, ator, radialista, teatrólogo, dono
de luminosa intelectualidade. Jamais
abdicou de suas convicções marxistas-leninistas,
apesar das pressões múltiplas e variadas perseguições,
até prisões, a primeira aos 22 anos. Tudo
iniciado quando a família descobriu que ele era leitor
do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, O
Estado e a Revolução, de Lenine, e outros
livros do gênero. Mario Lago conta o fuzuê que
explodiu dentro de casa:
"Política
era assunto considerado só do entendimento dos
doutores, estando, portanto, fora da cogitação
de todos, já que
em nossa família não existiam bacharéis
em leis. Mas os nomes dos autores daqueles livros
até minha mãe sabia de cor. Frequentavam
as manchetes de jornais e revistas, apontados com ódio
e nojo como responsáveis por sanguinolentos
banquetes onde criancinhas eram deglutidas al primo
canto e moças desvirginadas ao vinagrete.
(...) O estarrecimento materno foi ganhando corpo
na descompostura comedida do pai, acabando por explodir
em escândalo para além-quarteirão
na voz da avó, o que representou um toque de rebate
para os demais membros da sagrada família. Em
pouco tempo nossa casa era invadida pelos parentes moradores
nas proximidades, e tinha início o mutirão
de argumentos capazes de me trazerem de volta aos sãos
princípios norteadores do comportamento tribal
através dos tempos".
O tempo continuou a rolar,
o jovem marxista, cada vez mais famoso e ídolo público,
passou a frequentar as rodas do Café Nice, mas com
o fim do estabelecimento integrou-se à revoada que
foi pousar no Amarelinho. Para Mario Lago o novo ninho
não era novidade, sempre fez parte de suas rolanças,
fossem políticas, boêmias, intelectuais ou lazer. No
livro que serviu de inspiração a esta matéria
(lançado em 1976 pela Editora Civilização
Brasileira) o autor conta que em 1936, a convite de Oduvaldo
Viana, foi trabalhar em São Paulo, na Rádio
Panamericana, e por lá ficou, conforme o contrato,
um ano. Ele revela:
"Um ano sem
a Cinelândia. Turma boa e lugar sempre fervendo.
Quatro teatros funcionavam naquelas paragens, mantendo
permanentemente cheios os cafés e as esquinas
onde a gente fazia roda e papeava e se distraía:
o Glória, o Regina, o Rival e o Serrador. Cinelândia
que se espalhava pelo Amarelinho, Douradinho, Spaghetillândia,
Café Angrense, A Brasileira, Livraria Vítor,
em cujas vitrinas o Pandiá Pires sonhava ver um
dia expostas as cabeças de muitos figurões
que andavam empulhando a opinião pública".
Ele viveu neste nosso
vale de lágrimas
ao longo de quase 91 anos, dando-nos alegrias e contentamentos.
Em 2011, ocorrerá o centenário do seu nascimento,
que bem merece ser comemorado no lugar certo: a Cinelândia!
"FLAMENGO, FLAMENGO,
TUA GLÓRIA É LUTAR"
O título acima é do
hino oficial do rubro-negro, cuja autoria muitos confundem
atribuindo-a a Lamartine Babo, quando, na verdade, o autor é Paulo
de Magalhães, escritor, teatrólogo, radialista,
apresentador de TV e esportista, que se habituou a frequentar
as rodas do Amarelinho. Ao escrever o livro "Colóquio
Unilateralmente Sentimental" o poeta Manuel Bandeira
prestou ao amigo esta singular homenagem:
"Confesso em
público
e raso que um dos homens que mais tenho invejado na minha
vida é Paulo de Magalhães. Não porque
ele possua condecorações da França,
Itália, Portugal, Espanha, Bélgica e Peru.
Não porque ele tenha ganho a Medalha de Ouro da
Televisão Tupi (programa Ídolos de
Todos os Tempos) como autor do Hino do Flamengo
e antigo desportista pelo clube. Invejo-o por outras
inumeráveis coisas. Por exemplo: ser autor de
107 peças encenadas, outras tantas escritas e
um sem-conta delas imaginadas. A fecundidade teatral
de Paulo deslumbra, maravilha a minha total privação
de bossa ficcionista. Invejo-o pela sua esplêndida
verve de cabotino confesso, imprevisível e insuperável
(os cabotinos que abomino são os fingidos, os
sonsos, os que temperam o picante da imodéstia
com o molho hipócrita da falsa modéstia,
os que querem passar por violetinhas muito satisfeitas
com o seu retiro de sombras, quando na realidade o que
eles desejam é, como os girassóis, todo
o sol para si)".
A homenagem do poeta
prossegue através
de recordações de episódios os mais
movimentados da juventude, principalmente amorosa, do teatrólogo,
que conheci em 1967, um ano antes da morte de Manuel Bandeira.
Nosso primeiro encontro foi no 11º andar da Associação
Brasileira de Imprensa, e a partir daí ficamos amigos.
Jogando sinuca, irreverente, espaçoso, charutão
fumegando no canto da boca, sempre falando de suas glórias
e do Flamengo, dava asas ao simpático cabotinismo,
empregando quase sempre a primeira pessoa do singular. Certa
vez pediu minha opinião sobre o emprego do "plural
de modéstia", isto é: o uso do pronome
pessoal "nós", em lugar do "eu".
Respondi que esse plural tinha certas sutilezas, dependia
de subjetividades. Contudo, disse ao teatrólogo que
ele tinha lá suas razões, na frenética
preferência pela primeira pessoa do singular. E até observei
que ninguém usa o plural de modéstia para contar
dificuldades pessoais; se a cabeça dói, ninguém
diz "estamos com dor de cabeça"; se o sapato
aperta, ninguém diz "nosso sapato está nos
apertando", e por aí vai. Ora, se ninguém,
normalmente, divide dissabores, por que dividir êxitos?
Diante do meu argumento,
Paulo olhou-me intensamente e, pleno de satisfação,
berrou com sua possante voz: "Você foi cintilante.
Perfeito!". O grito estrondou por todo o 11º andar
da ABI. Para dificultar o uso do plural de modéstia,
ele também é conhecido como "plural majestático",
coisa herdada dos tempos em que o pronome "nós" era
bastante usado pelos monarcas de Portugal para estender ao
povo a grandeza do poder real. Tentavam, malandramente, passar
a idéia de que os reis interpretavam a vontade de
toda a nação e em nome dela tomavam suas decisões.
Tudo conversa fiada!
Tardes inteiras na ABI
não
eram suficientes para as fascinantes narrativas daquele que
foi presidente, várias vezes, da Casa dos Artistas,
grande amigo de Juscelino Kubitschek, pioneiro da TV em Brasília,
descobridor de talentos (entre muitos, orgulhava-se de ter
descoberto Fernanda Montenegro). Com desenvoltura e gestos
largos, contava seu retumbante êxito na França,
onde, ao derredor de 1950, havia trabalhado na Television
Française, ofuscando a Torre Eifel, o Arco do
Triunfo e o Museu do Louvre.
Da extensa autobiografia
(onde não
há plural de modéstia) de Paulo de Magalhães,
transcrevo breves trechos:
"O ano de 1927
foi um dos mais movimentados da minha vida. Além
do Primeiro Congresso Internacional de Teatro, ao qual
compareci como delegado do Brasil, ganhei o Tour
da Côte
d'Azur, em motocicleta, chegando em segundo lugar
o Marquês de Ravelles (primo de Alfonso XIII, Rei
de Espanha) e também arrebatei o Primeiro Prêmio
de Elegância Masculina, em Nice. Em
junho embarquei para Paris no Massília a
fim de tomar parte no congresso acima referido. Substituía
Bastos Tigre que estava licenciado da presidência
da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Eu, como
vice, assumi o cargo de delegado brasileiro. A
reunião foi no Palais Royal, sob a presidência
de Firmin Gemier, fazendo parte da mesa diretora Tristan
Bernard e Jean Jacques Bernard, sendo Presidente de Honra,
o Ministro Édouard Herriot.
França, Inglaterra,
Alemanha, Hungria, Grécia, Itália, Rumânia,
Bélgica, Espanha e Suécia mandaram ao congresso
delegações numerosas. Eu, representando
os autores e artistas brasileiros, fiz parte de várias
comissões. Na foto da instalação
do evento, na Sala dos Espelhos, no Palais Royal,
figuro ao lado de Tristan Bernard de quem fiquei cordial
amigo. No banquete de encerramento, presidido por Herriot,
com a presença de todos os embaixadores dos países
que se apresentaram no conclave, fui orador das delegações
latino-americanas. Falei de improviso, em francês".
Tive oportunidade de
ver um bem cuidado álbum
que Paulo de Magalhães me apresentou, com fotos e
recortes da imprensa francesa. Realmente, o representante
do Brasil causou profunda emoção, encheu de
orgulho o embaixador Souza Dantas e foi distinguido com especiais
referências feitas por Édouard Herriot.
Certo dia, medi a dimensão
do amor do teatrólogo pelo Flamengo: durante o governo
Médici (1969 - 1974) houve um evento, em homenagem
ao presidente, para o qual foram convidados nomes de prestígio
na ABI, entre eles nosso adorável
cabotino. A recusa ao convite foi contundente, pois naquela
tarde ele iria ver o treino do rubro-negro na Gávea,
missão que ele disse "ser sacratíssima
e que estava acima de qualquer coisa".
Vitórias do rubro-negro
eram comemoradas no Amarelinho em meio aos encantos da Cinelândia,
quando ele, voz trovejante, gestos largos, qual vibrante
canto alexandrino, proclamava as glórias do clube
do seu enorme coração. Uma das suas maiores
alegrias era no carnaval, quando as orquestras nos bailes
da folia marcavam a virada de sambas e marchinhas entoando "Flamengo,
Flamengo, Tua Glória é Lutar / Flamengo, Flamengo,
Campeão de Terra e Mar". Aí acontecia
um curioso fenômeno: torcedores e torcedoras de clubes
de altíssima rivalidade com o rubro-negro pulavam
alegremente ignorando o "sacrilégio" que
cometiam. Abordei o assunto, em crônica que escrevi
no jornal "O Dia", em 21 de fevereiro de 1982,
um domingo de carnaval.
Materialista convicto,
Paulo de Magalhães
embora sabendo os rumos fatais da doença que o mataria
(em 8-11-1972), recusava firmemente qualquer assistência
que não viesse da ciência médica dos
homens. Rejeitava qualquer tema reencarnacionista e proclamava
que a morte era uma libertação. Com 72 anos
dizia da felicidade do seu pai que morrera aos 50.
O ADEUS AO "JORNAL
DO BRASIL"
Ao término do
século
19, os jornais do Rio, e de todo o país, permaneciam
no estilo dos tempos do Império: de 4 a 8 páginas,
com destaque para um editorial (o chamado "artigo de
fundo") com linguagem empolada, esmerada em exaltação
aos interesses do dono do jornal, ou contundentes críticas àqueles
que contrariavam tais interesses. A paginação
era acanhada, colunas rigorosamente alinhadas, raríssimas
ilustrações, ausência de manchetes, títulos
de indigente criatividade. Tudo melancolicamente atrasado
em comparação com a imprensa dos centros europeus.
O noticiário,
em geral, misturava-se aos "despachos telegráphicos
do Estrangeiro", às
informações burocráticas de repartições
do governo e aos acontecimentos que envolvessem gente da
elite, figurões de variados matizes, principalmente
os "abastados negociantes" e suas "bem formadas
e distinctas famílias", moradores de espaçosos
palacetes. As notas sociais caprichavam em respeitosas referências às
matriarcas e às "gentis e mui prendadas senhorinhas,
a fina flor da nossa melhor sociedade". Os passeios
das elites pela Rua do Ouvidor também mereciam destaque
pela "elegância, requinte e bom gosto" que
exibiam. Contudo, décadas depois, o escritor Luiz
Edmundo fazia os seguintes comentários sobre as senhoras
da alta sociedade e suas filhas:
"As senhoras
vestem saias compridas, amplas, cheias de subsaias, sungadas
a mão;
mostram cinturinhas de marimbondo, os traseiros em tufo,
ressaltados por colêtes de barbatana de ferro,
que descem quase um palmo abaixo do umbigo. Tôdas
de cabelos longos, enrodilhados no alto da cabeça
e sôbre os quais equilibra-se um chapéu
que, para não fugir com o vento, fica prêso
a um grampo de metal em forma de gládio curto,
com um cabozinho enfeitado de madrepérola ou pedras
de fantasia. Usam, como fazendas, o surah, o faille,
o chamalote, o tafetá e o merinó; calçam
botinas de cano alto, de abotoar ou prêsas a cordão,
o infalível leque de sêda ou gaze na mão,
sempre muito bem-enluvada.
Não há pintura
de olhos, de lábios, nem de rosto. As mulheres
cariocas são figuras de marfim ou cêra,
visões
maceradas evadidas de um cemitério. Quando passam
em bandos lembram uma procissão de cadáveres.
Diz-se pelas igrejas que é pecado pintar o rosto,
que Nossa Senhora não se pintava".
É claro que o
escritor não
teria guarida nos jornais da alvorada do século 20,
mas se conseguisse publicar suas impressões, acima
fielmente transcritas, seria imediatamente posto no olho
da rua. Sem perdão.
O noticiário político
era, quase sempre, tendencioso, favorável ao partido
dos dirigentes do jornal. Fatos policiais tinham seus espaços,
enquanto a movimentação de navios (chamados vapores)
no cais do porto merecia detalhadas informações,
notadamente os de passageiros. Mas, foi então que
o "Jornal do Brasil", fundado em 1891, resolveu
inovar. Seu fundador, Rodolfo Epifânio de Sousa Dantas
(1854 - 1901), baiano de Salvador, formado pela Faculdade
de Direito do Recife, foi diretor do "Diário
da Bahia", membro do Partido Liberal e Ministro do Império;
apreciado orador, muito dedicou-se ao desenvolvimento da
Educação no país. Dirigido pelos irmãos
Fernando e Cândido Mendes, republicano e monarquista,
respectivamente, o JB tinha redação e oficinas
na Rua Gonçalves Dias, num arejado prédio de
2 andares.
Em 1921 havia formado
uma equipe respeitável:
Artur Costa, secretário; Agenor de Carvoliva, redator;
Afonso Celso, Osório Duque Estrada, Batista Coelho,
Paulo Vidal, Souza Valente, Martim Francisco, Feliciano Prazeres,
entre outros de um naipe altamente capaz, do qual faziam
parte os operários gráficos, todos contribuindo
para o sucesso do jornal. Também por lá ingressaram
Julião Machado, Raul Pederneiras, Artur Lucas e mais
alguns artistas da caricatura que os demais jornais resistiam
em acolher, embora obtivessem, aqueles exímios desenhistas,
sucesso e agrado popular em revistas e periódicos
que valorizavam o humor. Foi uma espetacular
renovação, culminada com a conquista da sede
própria, magnífico prédio de vários
andares na recém-inaugurada Avenida Central.
Em 1918, o JB é adquirido
por Pereira Carneiro e passa a se consagrar como o jornal
de pequenos anúncios (os classificados). Sempre na
vanguarda do progresso, o matutino, ao final dos anos 50,
sob a direção
da condessa Pereira Carneiro, empreendeu mais uma renovação:
saem os classificados da 1ª página, surgem o
Caderno B, a Revista de Domingo, além da Agência
JB, com seus correspondentes especiais espalhados pelas grandes
cidades dos cinco continentes. Também se transfere
para uma nova sede própria, na Avenida Brasil, enorme
edificação que se tornou referência para
os cariocas.
Mas, com o passar do
tempo, o JB sofreu contínuas dificuldades, causadas
por variados fatores, entrou em declínio e deixou
de circular em 31 de agosto de 2010, embora permaneça
vivo na internet (www.jbonline.com.br). O destino do bravo
jornal foi o mesmo de dezenas de tradicionais órgãos
de divulgação do Rio. Todavia, o término
do JB, em papel, provocou um fato inédito na imprensa
mundial, pois não há notícia de que,
em todo o mundo, qualquer periódico, no dia de sua
supressão, tenha reunido numerosas pessoas para assinalar
o acontecimento. E como caracterizar tal acontecimento? Manifestação
de pesar? Movimento de protesto? Diria eu que o espírito
carioca transformou-o numa homenagem com muito de gratidão
aos 119 anos de existência de um jornal tão
significativo para a cultura do Rio e do Brasil.
O local escolhido pelos
bem inspirados promotores do sentimental adeus foi a Cinelândia,
tendo o Amarelinho como palco principal, o que enriquece,
ainda mais, a história do estabelecimento. Tão
admirável
despedida foi comentada por variados veículos de informação,
e aqui destaco o realce que Ricardo Boechat, influente jornalista,
radialista e apresentador de TV deu ao evento, divulgando-o,
com muito carinho, na Rádio Band News, em horários
nacional e local.
Certamente, a gente iluminada
que lá compareceu esteve envolta nas intangíveis
energias positivas daqueles que já se foram para outras
esferas do Universo, mas que ao longo de um século
e duas décadas deram magnitude ao "Jornal do
Brasil".
JOÃO HAVELANGE
- ONTEM, HOJE E AMANHÃ
Quinhentos anos antes
de Cristo, o pensador grego Heráclito, considerado
o Pai
da Filosofia, fazia esta reflexão:
“É uma
mesma coisa ser vivo ou ser morto; desperto ou adormecido;
jovem ou velho; pois essas fases se transformam umas
nas outras e são, de novo, transformadas”.
Tal pensamento muito
era cultivado pelo imperador Augusto, o mais esclarecido
dos césares
romanos, que sabia se cercar de literatos, filósofos,
historiadores, artistas e construtores, entre eles Vergílio,
Horácio, Tito Lívio, Ovídio, Propércio
e Vitrúvio.
Nesta página "Gente
luminosa - Oscar Niemeyer e muito mais", há evocações,
um desfile de nomes que moldaram o passado, fazem parte
do presente e vão se projetar no futuro de todos
nós. De olho no tema, pedi a João Havelange
uma especial reflexão sobre o passado da Cinelândia,
no que fui prontamente atendido em setembro de 2010:
"Retornar o
meu pensamento à Cinelândia
de minha juventude é recordar o 'Amarelinho' que,
naquela época, era considerado de grande importância
para as reuniões culturais de nossa juventude.
É de nosso
dever, lembrando esse passado tão importante na
nossa formação,
mencionar e reviver, permanentemente, o que representou
de valor cultural e ético esse local, pelos exemplos
que apresentou e como tal será eternamente lembrado
e respeitado.
Hoje ainda está a
representar o seu papel no cenário tão
aprazível
que continua a ser a nossa Cinelândia, naturalmente
mais adequada aos tempos atuais".
Na juventude de Havelange
há um
fato marcante, sua participação, com apenas
20 anos, nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, credenciado
por vitórias no âmbito sul-americano, em provas
de 400, 800 e 1.500 metros, nado livre, além do revezamento
4 x 200. Na capital alemã, esteve ao lado de
astros da natação mundial, entre eles o húngaro
Csik, o norte-americano Jack Medica, os japoneses Terada
e Hamuro, além de duas estrelas holandesas que encantavam
o mundo, Hendrika Mastrenboeck e Nida Senff.
Em 1952, nas Olimpíadas
de Helsinki, lá estava Havelange integrando a equipe
de polo aquático do Brasil, em mais um episódio
de sua vida esportiva como atleta e dirigente, que o transformou
num Cidadão do Universo, mas sempre preservando
seus sentimentos de brasilidade.
Quando Havelange nos
exorta a lembrar o passado, faz-me refletir sobre Georges
Bernanos (personagem mencionado em capítulo anterior
desta série)
e entender o sofrimento do célebre escritor francês,
cujo espírito dilacerava-se diante das fulminantes
vitórias nazistas ao início da 2ª Guerra
Mundial. Buscava ele lenitivo na contemplação
da Cinelândia e nos seus comentários escritos
nas mesas do Amarelinho, divulgados pela BBC de Londres. Ferrenho
adversário do hitlerismo, Bernanos padeceu um doloroso
calvário a partir da queda da Polônia em setembro
de 1939; um país despreparado para enfrentar a blitzkrieg alemã,
derrotado em menos de um mês, apesar do heroísmo
simbolizado pela cavalaria em combate suicida com os blindados
germânicos, num cenário assim descrito pelo
historiador Hanson Baldwin, que se desenrolou no chamado
Corredor Polonês, na área de Dantzig (atual
Gdansk):
"No disputado
Corredor, de defesa impossível, duas divisões
de infantaria e a Brigada de Cavalaria Pomorze tentaram
manter a posse do terreno; foram isoladas pelo XIX Corpo
do 4º Exército
alemão, que progredira pela base do Corredor até a
Prússia Oriental. No dia 2 de setembro -
dois dias após o início da guerra - as
unidades polonesas estavam praticamente dizimadas. Os
magníficos cavaleiros, com as lanças em
posição de carga e couro das selas rangendo,
morriam junto com suas montarias ainda ouvindo o tropel
do galope. Homens, animais e coragem atiravam-se
contra os carros de combate e tiros de canhão,
mas não chegava a haver luta".
A via-crúcis de
Bernanos prosseguiu com a queda da Holanda e da Bélgica,
esta que em maio de 1940 viu suas defesas no Canal Albert
e a fortaleza Eben Emael serem neutralizadas, o que provocou
o rápido
isolamento de 22 divisões do exército comandado
pelo rei Leopoldo III, levando-o à rendição
incondicional. Já atingido nos seus sentimentos
gauleses, Bernanos sofreu mais uma profunda lancetada com
a rápida derrocada da França e a humilhante
capitulação em 22 de junho de 1940.
Em meio a tantas tragédias,
as considerações de Bernanos escritas no Amarelinho
eram traduzidas em vários idiomas e difundidas pelas
poderosas ondas curtas da emissora britânica, tornando-se úteis
componentes para a formação dos movimentos
de resistência nos países que estavam sob ocupação
nazista.
Na sua santíssima
indignação,
Bernanos mostrava profunda repulsa a uma nefasta trindade
de traidores de suas pátrias: Vidkun Quisling (Noruega),
Léon Degrelle (Bélgica) e Pierre Laval (França). O
norueguês e o francês foram julgados e executados
logo após o término da guerra, mas Degrelle
fugiu para a Espanha, colocou-se sob a proteção
do ditador Francisco Franco e conseguiu ser naturalizado
cidadão espanhol, o que impediu sua extradição.
Oscar Wilde, escritor
inglês
de origem irlandesa, autor de obras famosas na literatura
mundial, tais como "A Balada do Cárcere de Reading", "O
Retrato de Dorian Gray" e "De Profundis",
sentenciava:
"Aquele para
quem o presente é a única
coisa presente, não conhece nada da idade em que
vive. Para compreender o século décimo
nono, é necessário compreender todos os
séculos que o precederam e os que hão de
vir".
A sentença de
Wilde, proferida no século 19, está de acordo
com o resgate - que aqui vem sendo feito - da memória
da Cinelândia,
iniciativa tão bem compreendida por João Havelange. Quando
Graham Bell criou em 1876 um aparelho para auxiliar a audição
de surdos dava início à telefonia, que vem
se desenvolvendo há 134 anos. Foi lá,
em Massachusetts, numa modesta escola preparatória
para professores de surdos-mudos, que tudo começou...
Atualmente, vivemos o
tempo dos celulares, de tantas múltiplas funções,
mas que - no futuro - ultrapassados por novas tecnologias
não
poderão merecer desprezo ou comentários risíveis
daqueles que não sabem compreender o indissolúvel
entrelaçamento do ontem, do hoje e do amanhã.
CARLOS DRUMMOND
DE ANDRADE - LIÇÕES DE VIDA
As crônicas dominicais
do "Futebol
Pitoresco", escritas por João Antero de Carvalho,
publicadas no jornal "O Dia" ao longo de quase
vinte anos, tiveram como tema principal, em 31 de julho e
7 de agosto de 1983, o poeta e jornalista Carlos Drummond
de Andrade, sobrando gentis comentários sobre as musas
Polímnia, Calíope e Erato, etéreas filhas
de Zeus, inspiradoras dos diversos tipos de poesia. Como
desenhista daquela seção jornalística,
retratei Drummond recostado numa coluna grega, acompanhado
da suave Polímnia. O poeta, encantado com o desenho,
telefonou para o Antero e a dupla fez esta apreciação: "Os
traços tênues, num quase diáfano cenário
mitológico, a musa de corpo e alma envoltos em tristeza
formaram uma concepção genial". Tal
elogio, publicado em "O Dia" (7-8-83), deixou-me
tão envaidecido que me senti à altura de Leonardo
da Vinci...
Neste link,
no capítulo "A
doce nostalgia de Joel Silveira", há referência
ao início da carreira literária de Drummond,
sua integração à turma de jornalistas
do periódico "Dom Casmurro", dirigido por
Brício de Abreu, que costumava se reunir no Amarelinho.
Naquela época, o poeta também era diretor de
redação do jornal "Tribuna Popular",
fundado em 1945 como órgão oficial do PCB,
feito por gente de alto quilate, Rubem Braga, Samuel Wainer,
Moacir Werneck de Castro, João Saldanha, Mario Lago,
Oscar Niemeyer e tantos outros expoentes da cultura brasileira,
todos unidos em torno de um projeto de justiça social.
O mineiro Drummond possuía
fina sensibilidade, sempre apreensivo e inconformado com
os perniciosos e pertinazes contrastes sociais do Brasil,
que o faziam sofrer desde os tempos escolares no Colégio
Anchieta, em Nova Friburgo. A dimensão do poeta, com
obras traduzidas para o espanhol, francês, inglês,
alemão, sueco, tcheco, pode ser avaliada na preciosa
obra "Pensamentos Selecionados", do jurista e escritor
Benedito Calheiros Bomfim, que se tornou uma das minhas leituras
prediletas. As palavras de Drummond servem-nos como lições
de vida:
"A guerra
assume tantos disfarces que às vezes é chamada
de paz".
"Escrever
um diário é cultivar
a ilusão de que o tempo se deterá em
suas páginas".
"A alma,
prisioneira do corpo, vive em guerra com seu carcereiro".
"Autor de
obras-primas, o homem é incapaz de fazer um
pé de couve".
"A sociedade
estabelece requintes de vestuário e de culinária
que dispensam os de espírito".
"Testamento:
forma de saborear a morte continuando vivo".
"No Brasil,
quem compra livro é raridade, e quem fica com
livros dos outros é legião".
"A amizade é um
meio de nos separarmos da humanidade cultivando algumas
pessoas".
"A flor
não
nasceu para decorar a casa, embora o morador pense
o contrário".
"Virgindade:
atributo que a natureza concebeu contra o seu próprio
interesse".
"Viver em
sociedade requer instinto de formiga, dentes de leão
e habilidade de camaleão".
"A maior
ambição
dos inovadores é que suas inovações
se tornem tradicionais".
"Sofremos
não
porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada".
Tenho uma amiga, das
mais admiráveis,
Myriam de Filippis, italiana de Nápoles, chegada ao
Brasil em 1971 e que se tornou excelente conhecedora do nosso
idioma, craque em gramática normativa, tradutora,
além de professora de italiano. Uma intensa e profícua
vida profissional que ela, em recente mensagem a mim enviada
assim expõe:
"O meu problema
não é trabalhar.
O meu problema é não saber limitar o
meu trabalho. Mas esta incapacidade se deve principalmente
ao fato de eu considerar uma dádiva poder ainda
trabalhar na minha idade, e não me parece inteligente
recusar trabalho quando ainda há quem me oferece
trabalho. Eu sei que logo, logo, ninguém vai
me procurar mais por trabalho algum, então me
sinto na obrigação de colher todas as
oportunidades que se me apresentarem".
A noção
de Myriam sobre o aproveitamento do tempo lembra-me esta
lição
de Drummond:
"A cada
dia que vivo, mais me convenço que o desperdício
da vida está no amor que não damos, nas
forças que não usamos, na prudência
egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se
do sofrimento, perdemos também a felicidade".
O PEIXE ASSADO
DE PORTINARI
A vitória da URSS
na 2ª Guerra
Mundial sobre o nazismo provocou admiração
dos países aliados; o heroísmo do povo soviético
emocionou a todos, atenuando o antimarxismo que ocorria desde
a consolidação da Revolução Russa
de 1917. Naquele período de aliança contra
o hitlerismo, o cinema de Hollywood lançou, em meio
a uma festiva propaganda, o filme "A Estrela Vermelha",
com um dos astros mais famosos daqueles tempos, o galã Robert
Taylor, interpretando um destemido guerrilheiro russo em
luta contra o invasor nazista.
Mas, com o término
do conflito, a aliança fragilizou-se e surgiram rivalidades
entre, principalmente, americanos e soviéticos (a
chamada "guerra fria") e o comunismo passou, nos
países ocidentais, a ser intensamente combatido. No
Brasil houve até uma antecipação do
macartismo (veja neste link o texto sob o título "O
poeta e dois dos seus amores"), quando a esquerda
passou, a partir de 1945, a ser hostilizada. Entre os movimentos
antimarxistas estavam a Cruzada Brasileira Anticomunista
(do almirante Pena Boto), o Clube da Lanterna e a Cruzada
Democrática.
O PCB, fundado em 1922,
que havia sido posto na ilegalidade em 1937, voltou em 1945,
porém
teve seu registro cancelado em 1947. No curto período
de legalidade concorreu às eleições
presidenciais e parlamentares de 1945, e seu candidato a
senador pelo Rio de Janeiro (então Distrito Federal)
era Cândido Portinari, que foi derrotado por pequena
margem de votos, consequência da acirrada campanha
que sofreu, ao lado de seus companheiros de partido apontados
como "perigosos agentes do bolchevismo, pagos pelo ouro
de Moscou". Nosso artista, profundamente desgostoso
com o desenfreado anticomunismo vigente no Brasil, foi com
a família para o Uruguai, de lá voltando em
1951.
Contudo, a arte de Portinari
venceu as intolerâncias e atingiu maior consagração
com seus murais "Guerra e Paz", entronizados na
sede da ONU, em Nova York, obras monumentais que, provisoriamente,
retornaram ao Brasil para restauro, exposição
em vários Estados e outros países, até que
o edifício da ONU seja completamente reformado. Esses
murais estiveram expostos no Teatro Municipal entre 22 de
dezembro de 2010 e 6 de janeiro de 2011, atraindo multidões ávidas
em contemplar tão impressionantes criações
do gênero humano.
Portinari morreu em 1962,
pouco depois de completar 58 anos de idade, e de suas muitas
evocações
deve ser ressaltado: - apesar das intolerâncias que
o fizeram padecer, ele foi um admirável expoente da
arte sacra. Ao longo de sua vida terrena, pintou, em 1942,
temas bíblicos para a sede da Rádio Difusora
de São Paulo; painel em azulejo sobre a vida de São
Francisco e cenas da Via Sacra (óleo sobre madeira)
na igreja da Pampulha, Belo Horizonte, 1944 - 1946; o enorme
mural "Primeira Missa no Brasil", no edifício
sede do Banco Boavista, no Rio, 1948 - 1949; uma série
de murais para a igreja de Batatais, SP, 1953; tudo dando
curso ininterrupto a uma arte que o sensibilizou, ainda menino,
quando auxiliava na pintura e decoração da
igreja de Brodósqui, sua pequena cidade natal no interior
paulista.
Em suas permanências
no Rio, cidade que o maravilhava desde sua chegada, aos 15
anos, para estudar na Escola Nacional de Belas Artes, Portinari
tinha especial predileção pelo Amarelinho,
que nas décadas de 1940 e 1950 oferecia entre suas
atrações um prato que - conforme revela o pesquisador,
historiador e gastrônomo Breno Lerner - deliciava o
pintor, o peixe assado com molho de mandioca.
VINICIUS DE MORAES – VERSOS
LIVRES, VERSOS SOLTOS
Neste menu , sob o título “Protofonia” da
Orquestra Sinfônica Brasileira, há uma
reprodução de texto do escritor JG de Araújo
Jorge que recorda poetas, músicos e intelectuais
frequentadores do Amarelinho, entre eles Vinicius de Moraes,
um carioca nascido no Jardim Botânico em 1913. Na
Escola Afrânio Peixoto, no curso primário,
Vinicius já se revelava um exímio namorador,
saudável atividade que se estendeu ao longo do secundário,
no Colégio Santo Inácio, e por toda a sua
vida de variados e renovados amores, tudo envolto em música
e poesia.
Foi na Faculdade de Direito
do Catete – o
saudoso templo de formação de consciências
cívicas e lúcida participação
na vida política do país – que Vinicius
moldou os rumos de sua trajetória na literatura, no
jornalismo, no cinema (como roteirista) e na carreira diplomática.
Sua biografia é bastante conhecida, mas aqui se deve
realçar a amizade com o poeta chileno Pablo Neruda,
ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1971.
Naqueles tempos de fascínio
da Cinelândia, a presença de Vinicius, num ambiente
tão propício, trazia seu culto à poesia
do chileno, à liberdade de criar dentro de um vasto
universo literário assinalado por mais de 40 modalidades
de versos, mas cujo número real é impossível
fixar, pois não há critérios para impor
limites à arte de conceber uma linguagem afetiva,
marcada pela repetição de sons ou grupos sonoros
semelhantes. Um desafio diante do qual Neruda expunha
seu pensamento:
“Não aprendi
nos livros nenhuma receita para a composição
de um poema; e, por minha vez, não deixarei impresso
sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas
recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria”.
Como se vê, no
ideário
de Neruda está a plena aceitação dos
versos livres, os que não obedecem às exigências
da métrica, tendo como único critério
as pausas espontâneas da inspiração lírica;
ou dos versos soltos, os que não se submetem à rigidez
das rimas. Além da liberdade de criar, Neruda também
nos dá pensamentos em torno da motivação
e dos estilos de poemas:
"Os deveres do poeta
foram talvez sempre os mesmos na história. A honra
da poesia foi sair à rua, foi tomar parte nesse
e naquele combate. O poeta não se assustou quando
o disseram insurgente. A poesia é uma insurreição.
Não se ofende o poeta porque o chamam subversivo.
A vida ultrapassa as estruturas e há novos códigos
para a alma".
"A vida e os livros,
as viagens e a guerra, a bondade e a crueldade, a amizade
e a ameaça,
fizeram mudar cem vezes o traje da minha poesia".
E foi assim, livre e
solto, que Vinicius louvou seus orixás através
dos afrossambas, musicados por Baden Powell; sabendo, principalmente,
transformar-se para permanecer na memória e no coração
do seu povo.
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Texto: Murilo Brasil - www.murilobrasil.com.br
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